O evento

O I Colóquio de Arqueologia Funerária terá como tema central “Performance, Morte e Corpo”. Performance e dinâmica ritual são temas caros ao debate em antropologia e arqueologia e que se tornaram alicerce dos novos estudos em arqueologia funerária. Hoje, é necessário cada vez mais pensar o conjunto de práticas funerárias em sua heterogeneidade e dinamicidade, isto é, como o resultado de ações humanas dotadas de historicidade que não apenas reproduzem valores sociais, mas que também criam, legitimam e reconfiguram noções de diferentes sociedades e, consequentemente, os lugares sociais dos indivíduos em suas comunidades (sejam eles vivos ou mortos). A importância do corpo na arqueologia tem igualmente crescido em destaque.

Os registros arqueológicos funerários de que dispomos para o estudo das sociedades passadas revelam, por excelência, um conjunto de práticas situacionais e ritualizadas que buscam dar conta de um problema comum a todas as sociedades humanas, independentemente de sua localização ou temporalidade: a morte. Entender como a morte é vista e tratada por diferentes sociedades ao longo do tempo oferece-nos, portanto, um campo rico de investigação arqueológica e social.

Desde os anos de 1960, os estudos funerários têm visto uma incrível transformação para a pesquisa arqueológica tanto do ponto de vista teórico quanto em virtude do surgimento de novos métodos e técnicas de pesquisa. Propomos com esse evento uma reflexão comparada e multidisciplinar a respeito das várias relações estabelecidas em diferentes sociedades com a morte. Reuniremos, aqui, pesquisadores que estudam a morte e contextos funerários em sociedades pré- e proto-históricas no Brasil e na Europa, bem como a morte e funerais em contextos coloniais na Antiguidade (especialmente nas antigas Sicília, França, Bretanha e Península Ibérica) e na época Moderna (especifiamente no Brasil e na Argentina), de modo a que possamos aproximar historiadores, arqueólogos, antropólogos e sociólogos para compartilhar suas observações de trabalho de campo, de novos métodos e técnicas de análise, bem como perspectivas teóricas para a interpretação dos achados arqueológicos.

Esse debate se dará a partir da materialidade da morte – seja fazendo uso de vestígios na forma de ossadas (através de estudos osteológicos), de artefatos (no estudo de mobiliário fúnebre), ou de enterramentos, tumbas e cemitérios (no estudo de conjuntos cemiteriais). Buscaremos aqui entender como performances, atitudes e tratamentos distintos em relação aos corpos e aos mortos foram adotados durante determinados ritos funerários possibilitando a construção de um espaço de debate rico ao discutir não apenas a morte e os mortos — a partir de diferentes eixos investigativos — mas, em especial, enriquecer nosso conhecimento a respeito dos “vivos” e das dinâmicas essenciais que ocorrem em todas as sociedades humanas e marcam a transição da morte biológica para a morte social. Trata-se, portanto, em última instância de debater não apenas o próprio conjunto de rituais fúnebres relacionados a morte, mas também os aspectos organizacionais, religiosos, políticos, econômicos e culturais com os quais tais rituais se intersectam.
Logo, o programa deste I Colóquio de Arqueologia Funerária está dividido em três eixos:

  1. Conjuntos Cemiteriais: esse eixo se dedica às abordagens conceituais de cemitérios em história, arqueologia, antropologia e sociologia, dando destaque às escolhas pessoais, às construções imaginárias e discursivas nas formas de enterramento e nos arranjos cemiteriais. Aqui, também abarca-se os estudos rituais e particularmente de performance para compreensão da materialidade da morte.
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  2. Bioarqueologia: que está voltada a análise de ossadas (animais e humanas) em contextos funerários, e a correlação entre atributos biofísicos (sexo, idade, desenvolvimento, traumas, causa de morte) e atributos sócio-culturais (gêneros, valores etários, status, diferenciações pós-mortem). Este eixo incluirá ainda a discussão sobre a aplicação de novos métodos e novas tecnologias (a exemplo da modelagem em 3D) para os estudos osteológicos a partir de contextos funerários.
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  3. Mobiliário e Performance Funerária: esse eixo trata das deposições funerárias, seus usos e significados. Tendo como foco os achados arqueológicos, dar-se-á particular atenção ao debate sobre as práticas funerárias, as escolhas e significados de deposições e mobiliário funerário, as construções de relações sociais ou étnicas a partir de tratamentos funerários e/ou deposições em contexto funerário. De particular interesse para esse eixo, são os estudos de construção de personalidade dos indivíduos enterrados e de seus grupos de parentesco, bem de cadeia operatória das construções funerárias e das performances rituais em si.

Local e Data

Local:
Museu Histórico Nacional – Praça Marechal Âncora, s/nº, próximo à Praça XV Cep: 20021-200 – Centro – Rio de Janeiro – RJ – Brasil

Data:
03 e 04 de abril de 2018